Moradores do Alemão e da Penha protestam contra mortes em operação

Moradores dos Complexos do Alemão e da Penha fizeram um protesto nesta quarta-feira (29) em frente ao Palácio Guanabara, sede do governo do estado do Rio de Janeiro. Eles acusaram o governador Claudio Castro de ter liderado “uma carnificina na operação policial” que deixou mais de 100 mortos.

O grupo foi escoltado do Complexo da Penha até o Palácio Guanabara por policiais do Batalhão Tático Móvel da Polícia Militar.

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Os manifestantes exibiram cartazes com frases como “estado genocida”, “todas as vidas importam”, “150 mortes por uma guerra política” e “Castro assassino”. Também havia dezenas de bandeiras do Brasil com manchas vermelhas.

“Não é possível que esse governador não seja responsabilizado por tantas vidas. Ou nós já temos pena de morte no país? O que aconteceu dentro da comunidade foi um genocídio. Toda véspera de eleição, tem uma estratégia de entrar nas nossas comunidades, matar o nosso povo e causar o terror”, disse Rute Sales, moradora da região e ativista negra.

“Os corpos estão sendo usados politicamente. E os corpos que tombam são os nossos, do povo preto e do povo pobre. Não aguentamos mais”, complementou.

O ato ocorreu pouco antes da reunião entre Castro e o ministro da Justiça e da Segurança Pública, Ricardo Lewandowski. Eles anunciaram a criação de um escritório emergencial para enfrentar o crime organizado no estado, e melhorar a integração entre as esferas federal e estadual.

 A coordenação será compartilhada entre o secretário nacional de Segurança Pública, Mario Sarrubbo, e do secretário de Segurança Pública do Rio, Victor Santos.

Lewandowski disse que o governo federal vai aumentar do efetivo da Polícia Rodoviária Federal em 50 agentes nas estradas e o efetivo de agentes de inteligência no estado. Também foram colocados às disposição peritos e vagas nos presídios federais, caso o governo estadual requisite.

Mesmo com o número de mortos, o caos que tomou conta da cidade e a denúncia feita por moradores da Penha e do Alemão de que ocorreram execuções e torturas nas comunidades, o governador do Rio, Claudio Castro, disse que a operação foi um sucesso e as únicas vítimas dos confrontos foram os quatro policiais mortos.

Ele disse ter dado um “duro golpe na criminalidade” e que não houve precipitação das forças de segurança.

João Fonseca batalha em quadra, mas dá adeus ao Masters 1000 de Paris

O jovem tenista brasileiro João Fonseca se despediu nesta quarta-feira (29) do Masters 1000 de Paris, após ser superado por 2 sets a 1 pelo russo Karen Khachanov – parciais de 6/1, 3/6, e 6/3 – na segunda rodada do torneio. O carioca de 19 anos (28º no ranking) foi dominado no primeiro set, mas se recuperou em seguida. Mais assertivo em quadra, chegou a empatar o jogo, contando com alguns erros não forçados do russo. No entanto, no terceiro e decisivo set, pesou a experiência de Khachanov (14º) que selou a vitória com parciais de 6/1, 3/6, e 6/3. Nas oitavas, o tenista russo enfrentará o australiano Alex de Minaur. 

Campeão no ATP 500 da Basileia (Suíça) no domingo (26), Fonseca entrou em quadra hoje após uma sequência de seis jogos seguidos: foram cinco triunfos na Basileia, com intervalo de apenas um dia até a estreia ontem em Paris, com vitória de virada, por 2 sets a 1, sobre o canadense Denis Shapovalov (24º).

Já Khachanov, de 29 anos, teve vitória fácil na primeira partida do Masters 1000 na última segunda (27), contra o norte-americano Ethan Quinn, com um duplo 6/1. Além disso, ele jogou apenas um dia na semana passada, quando foi eliminado na estreia do ATP 500 de Viena.

Fonseca ainda vai buscar o terceiro título da temporada – o primeiro foi o ATP 250 de Buenos Aires. O carioca está confirmado no ATP 250 de Atenas (Grécia), que começa na próxima segunda-feira (3 de novembro).

STJ mantém condenação de ex-governador Arruda por improbidade

A Primeira Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu manter a condenação do ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda (foto) por improbidade administrativa em um dos processos da Operação Caixa de Pandora.

A decisão foi proferida durante julgamento virtual ocorrido no dia 13 deste mês e divulgada nesta quarta-feira (29).

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Por unanimidade, o colegiado rejeitou um recurso protocolado pela defesa do ex-governador, que está inelegível por conta das condenações sobre o esquema de corrupção que foi apurado no governo distrital, em 2009. 

Os advogados defenderam a anulação da condenação por improbidade após a Justiça Eleitoral anular uma das escutas ambientais que foram utilizadas por Durval Barbosa, delator do esquema, para denunciar as irregularidades no governo. 

O caso específico trata de contratos irregulares envolvendo a Linknet, empresa de informática que prestou serviços ao governo do DF.

Ao analisar o caso, os ministros do STJ entenderam que a condenação do ex-governador não foi baseada somente na escuta ambiental, mas em provas documentais e testemunhais.

Em nota à Agência Brasil, a defesa de Arruda informou que “discorda da decisão do STJ, na medida que em referendou condenação lastreada em prova ilícita e, portanto, nula”.

Os advogados acrescentaram “que referida decisão não impacta na elegibilidade de Arruda, porquanto sejam aplicáveis os dispositivos da nova legislação eleitoral”.

* Texto atualizado às 22h39 para acréscimo da manifestação da defesa 

Lewandowski e Castro anunciam escritório emergencial contra crime

O ministro da Justiça e da Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, e o governador do Rio de Janeiro, Claudio Castro, anunciaram nesta quarta-feira (29) a criação de um escritório emergencial para enfrentar o crime organizado no estado. O objetivo é melhorar a integração entre as esferas federal e estadual.

 A coordenação será compartilhada entre o secretário nacional de Segurança Pública, Mario Sarrubbo, e do secretário de Segurança Pública do Rio, Victor Santos.

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 “É um fórum onde as forças vão conversar entre si, tomar decisões rapidamente até que a crise seja superada. Este é o embrião daquilo que nós queremos criar com PEC da Segurança Pública que está sendo discutida no Congresso Nacional. Nós queremos fazer um entrosamento das forças federais, estaduais e até municipais no enfrentamento deste flagelo”, disse o ministro Lewandowski.

A ideia é que ações sejam “100% integradas” para vencer burocracias e respeitas competências de cada órgão, conforme o governador do Rio. 

“Tentar eliminar barreiras para que nós possamos de fato fazer uma segurança pública que atenda o nosso verdadeiro e único cliente, que é o cidadão”, disse o governador do Rio.

A medida ocorre depois da Operação Contenção nos complexos do Alemão e da Penha, que deixou mais de 100 mortos. A ação é considerada a mais letal da história do país. Em retaliação, criminosos ligados ao Comando Vermelho interditaram ruas em diversos pontos da cidade, com veículos atravessados e barricadas.

Lewandowski disse que o governo federal vai aumentar do efetivo da Polícia Rodoviária Federal em 50 agentes nas estradas e o efetivo de agentes de inteligência no estado. Também foram colocados à disposição peritos e vagas nos presídios federais, caso o governo estadual requisite.

O encontro no Palácio Guanabara, sede do poder estadual do Rio, aconteceu depois de o governador Cláudio Castro cobrar mais apoio do governo federal no enfrentamento às organizações criminosas que atuam no estado. Segundo Castro, o estado está atuando “sozinho nesta guerra”.

No mesmo dia, Lewandowski disse não ter recebido pedido de ajuda do governador para a operação. O ministro lembrou que, no começo do ano, o governador do Rio esteve no Ministério da Justiça e Segurança Pública e pediu a transferência de líderes das facções criminosas para penitenciárias federais de segurança máxima, e foi atendido.

“Narcoterrorismo”

O governo do Rio tem usado, com frequência, a expressão “narcoterrorismo” para se referir ao crime organizado. Questionado sobre o termo, o ministro Lewandowski disse que ele não se aplica à realidade do estado.

“Uma coisa é terrorismo, outra coisa são facções criminosas. O terrorismo envolve sempre uma questão ideológica. Uma atuação política, uma repressão social com atentados esporádicos. As facções criminosas são constituídas por grupos de pessoas que sistematicamente praticam crimes que estão capitulados no Código Penal. Portanto, é muito fácil identificar o que é uma facção criminosa pelo resultado de suas ações”, disse o ministro.

O ministro disse que a legislação estabelece com clareza as classificações para organização criminosa e grupos terroristas.

“São dois tipos de atuação que não se confundem e, da parte do governo federal, não temos nenhuma intenção de fazer uma mescla delas”, complementa.

GLO

Lewandowski e Castro descartaram a possibilidade de emprego das Forças Armadas para atuar na segurança do estado, por meio da decretação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO).

“Nós não nos manifestamos nesse sentido [a favor ou contra]. A GLO está prevista no artigo 142 da Constituição Federal. É uma operação excepcional, que depende de uma solicitação do governador, vamos falar aqui do governador ou da autoridade local que reconhece aí incapacidade das forças locais de debelarem uma situação de crise”, disse o ministro.

Castro também negou ter cogitado solicitar a medida. 

“Isso [GLO] veio à tona somente porque eu falei da questão dos blindados, que nós em outras três ocasiões tínhamos requerido e nos foi negado porque haveria necessidade de uma GLO. A situação das forças de segurança do Rio de Janeiro hoje é completamente diferente da de 2018. Hoje nós temos uma força de segurança estadual capacitada”, afirmou o governador.

EBC e UnB assinam carta de intenção para parceria institucional

A Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e a Universidade de Brasília (UnB) assinaram, nesta terça-feira (28), uma carta de intenção para o desenvolvimento de uma parceria institucional voltada à integração entre a formação acadêmica, a pesquisa científica e a prática profissional no campo da comunicação pública. O termo foi assinado pelo presidente da EBC, Andre Basbaum, e pela diretora da Faculdade de Comunicação da UnB, Dione Moura, durante debate realizado na universidade em comemoração aos 18 anos da empresa.

Basbaum destacou a importância da aproximação com a academia. “O lugar da comunicação pública é também a universidade. A universidade e a comunicação pública têm uma relação muito íntima”, declarou. Dione Moura ressaltou o papel estratégico da comunicação pública para o fortalecimento democrático: “É na comunicação pública que reside a segurança dos processos democráticos. Não tem outro lugar que possa fazer isso. E a universidade pública junta-se nesse processo.”

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O objetivo da parceria é estabelecer um programa colaborativo entre a EBC e a UnB que incentive estudantes de graduação e pós-graduação em comunicação e jornalismo a desenvolverem projetos autorais, reportagens e conteúdos multimídia voltados ao interesse público, com enfoque em temas de relevância nacional, diversidade, cidadania, cultura, sustentabilidade e inovação.

As atividades previstas incluem a submissão de propostas de reportagens por alunos, que podem participar individualmente ou em grupos, com foco em temáticas sociais e em jornalismo público. Os projetos finalistas serão publicados na Agência Brasil, e seus autores participarão de uma semana de imersão nas redações da EBC em Brasília, com experiências práticas na Agência Brasil, TV Brasil e Rádio Nacional.

Integrantes da EBC e da UnB também poderão formular propostas de pesquisas e de atividades de formação que possam contar com a participação de estudantes, professores, técnicos e profissionais da empresa, da universidade e de outras instituições com atividades relacionadas. A parceria será acompanhada por um comitê conjunto, composto por representantes da EBC e da UnB, responsável por definir o cronograma anual, os critérios de avaliação, as temáticas prioritárias e o acompanhamento das atividades de imersão.

Dezoito anos

Em comemoração aos 18 anos da EBC, foi realizado debate na UnB com o objetivo de discutir os desafios e o futuro da comunicação pública no Brasil. Além do presidente da EBC, Andre Basbaum, participaram do encontro a primeira presidenta da empresa, Tereza Cruvinel; os ex-presidentes Ricardo Melo, Kariane Costa e Hélio Doyle; a ex-ministra da Secom/PR, Helena Chagas; o ex-presidente da Radiobrás e professor da Universidade de São Paulo (USP), Eugênio Bucci; e o presidente do Comitê Editorial e de Programação (Comep/EBC), Pedro Rafael Vilela; a diretora da Faculdade de Comunicação da UnB, Dione Moura; e o professor Fernando Oliveira Paulino, coordenador do Laboratório de Políticas de Comunicação (LaPCom) e presidente da Associação Latino-Americana de Investigadores da Comunicação (Alaic).

Anistia Internacional classifica como desastrosa operação no Rio

A diretora-executiva da Anistia Internacional no Brasil, a médica Jurema Werneck, considera “desastrosa” a operação policial Contenção nos complexos do Alemão e da Penha, nesta terça-feira (28) na zona norte do Rio de Janeiro. Balanço oficial mais recente aponta que ação resultou na morte de 119 pessoas.

Jurema Werneck diz que há desinformação sobre o êxito da operação. “As autoridades da segurança pública dizem que foi uma operação planejada. [Mas] uma operação com tanta morte?”, questionou durante entrevista ao telejornal Repórter Brasil, da TV Brasil.

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Diretora aponta que os policiais ontem na Penha e no Alemão não tinham “controle do ambiente” e nem cumpriram com “dever de proteção da vida e do patrimônio.”

“É preciso dizer que essa operação não é um sucesso. É desastrosa. Qualquer pessoa sabe que assassinato e sucesso não entram na mesma frase. Assassinato de centena de pessoas. Nós recebemos notícias de milhares de pessoas traumatizadas e que estão sofrendo.”

Assim, Werneck considera que a operação foi um “retumbante fracasso” para o Estado e para a sociedade. “Não apenas para o governador [Cláudio Castro] e para os seus assessores da área de segurança. O fracasso é para todas e todos nós, infelizmente.”

A fala da diretora da Anistia Internacional contrasta com a avaliação do governador Castro. Segundo ele, a operação foi positiva. “Mostramos ontem um duro golpe na criminalidade e que temos condições de vencer batalhas”, disse pela manhã em entrevista coletiva à imprensa.

Para Jurema Werneck, a fala do governador do Rio de Janeiro “estimula toda ação fora da lei”, e tanto ele quanto a equipe estadual de segurança pública sabe que a operação foi ilegal. “Um desrespeito ao direito internacional, aos diretos humanos, à Constituição e toda legislação brasileira.”

A Anistia Internacional, em conjunto com outras entidades civis e instituições, está colhendo relatos sobre a operação. De acordo com Werneck, o que tem sido informado revela “descalabros”. Ela espera que “o governador apresente as provas da correição da operação, do suposto planejamento da ação.”

A Anistia Internacional promete prestar auxílio às pessoas afetadas pela operação e atuar para que haja reparação judicial e responsabilização das autoridades. “A gente só espera que as instituições brasileiras cumpram o seu dever. O mundo inteiro está vendo.”

STJ suspende operações da Refinaria de Manguinhos, no Rio

O presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), ministro Herman Benjamin, decidiu nesta quarta-feira (29) suspender as operações da Refinaria de Petróleo de Manguinhos (Refit), no Rio de Janeiro.

O ministro atendeu ao recurso apresentado pela Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) para derrubar uma decisão da Justiça do Rio que determinou a retomada das atividades da refinaria.

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Em setembro, as instalações da Refit foram interditadas durante uma operação deflagrada pela Receita Federal e a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). A interdição ocorreu em função de suspeitas de irregularidades na importação e venda de combustíveis.

No sábado (25), a ANP liberou parcialmente as atividades da refinaria após a Refit cumprir 10 das 11 condicionantes que foram determinadas pela a agência durante a interdição.

A Agência Brasil entrou com contato com a Refit e aguarda retorno. O espaço está aberto para manifestação. 

Testemunhas denunciam execuções e torturas no Rio: “carnificina”

A operação policial realizada nesta terça-feira (28) contra o tráfico de drogas nos complexos da Penha e do Alemão, zona norte da cidade do Rio de Janeiro, foi marcada por execuções e torturas e classificadas como carnificina por moradores, parentes dos mortos e pela Associação de Moradores do Parque Proletário da Penha.

A reportagem da Agência Brasil esteve no local e entrevistou testemunhas que tentaram socorrer as vítimas nas primeiras horas ou ajudaram na remoção dos corpos. Segundo a contagem oficial do governo do estado, são ao menos 119 vítimas. É a operação mais letal da história da capital fluminense. 

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Para impedir a fuga dos suspeitos, a estratégia das polícias foi invadir as comunidades e montar “um muro” com agentes do Batalhão de Operações Especiais (Bope), bloqueando a fuga pelo alto da mata que circunda as duas comunidades. No local, segundo os relatos, se deu o confronto mais violento, com sinais de tortura e execução de dezenas de corpos resgatados e dispostos na manhã de hoje em frente à associação comunitária, na Praça São Lucas, na localidade conhecida por Vila Cruzeiro.

” A gente ouviu os gritos e pedidos de socorro e subiu para ajudar. Eu moro perto. Entrei na mata 3h da manhã.”, contou um morador. O homem, de 25 anos, que preferiu não se identificar, contou que, naquele momento, a polícia ainda estava no local e tentou impedir a ajuda.

“Eles não paravam de dar tiro, tacar bomba de gás [lacrimogêneo] e, em muitos momentos, a gente teve que se proteger. Eles dando tiro, a gente se escondendo no meio dos corpos para prosseguir”, relatou.

A testemunha esteve, mais cedo, no Instituto Médico-Legal (IML) para tentar liberar o corpo de um primo, morto na operação. Na tentativa de socorro, o homem revelou que o cenário na mata era desolador.

“A gente encontrou muitos mortos sem camisa, fuzilados, com mãos e dedos decepados e também decapitados. Eu vi bem uma cabeça que estava entre os galhos de uma árvore e o corpo jogado no chão”, disse.

Ele mostrou à reportagem o vídeo da vítima encontrada nessas condições, identificada como Ravel. Fotógrafos que estiveram na área mais cedo também encontraram vítimas mortas com a cabeça cortada por faca.

Segundo a testemunha, os moradores que participaram do resgate acessaram ainda celulares encontrados no local ou receberam áudios das vítimas contando que tinham se rendido, antes da execução, contrariando a versão do governo do estado de que os mortos foram vitimados em confronto.

“Vocês viram os vídeos dos meninos saindo do bunker, ontem, se entregando? Eles não são um terço dos que se entregaram. Teve gente que pediu perdão, se ajoelhou, jogou os fuzis, mas foi morta”.

O presidente da associação comunitária de Parque Proletário, Erivelton Vidal Correa, em entrevista na sede da entidade, na Penha, confirmou o depoimento da testemunha ouvida pela Agência Brasil e disse que desde às 19h da noite de terça, as famílias tentavam subir a mata para ajudar as vítimas. Ele avaliou que, se o socorro tivesse chegado antes, possivelmente, o número de mortos poderia ter sido menor.

A entidade chegou a levar seis baleados para o Hospital Estadual Getúlio Vargas, ontem, mas eles chegaram mortos à unidade.

“Retiramos um total de 80 corpos da área conhecida como Mata da Pedreira, com o nosso sistema, nossa mão de obra. Pedimos aos moradores que trouxessem lençóis, toalha, canga, o que tivessem, para ajudar com as remoções”, contou Correa.

Rio de Janeiro (RJ), 29/10/2025 – Erivelton Vidal Correa, presidente da Associação Comunitária do Parque Proletário da Penha, Operação Contenção. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Tortura

O presidente da associação também confirmou os sinais de tortura e execuções: “Muitos corpos deformados, com perfurações no rosto, perfurações de faca, cortes de digitais, dois corpos decapitados, a maioria dos corpos não tinha face, essa era a condição”. Entre eles, o de dois irmãos manauaras. “Eles foram mortos abraçados com um tiro na cara cada um e tiveram as digitais cortadas”.

Segundo Correa, durante todo o período de 11 anos que esteve na associação da Penha, nunca tinha se deparado com cenário tão violento. “Foi uma arbitrariedade muito grande. A gente sabe que o Estado tem que trabalhar, mas trabalhar direito, o que aconteceu aqui foi um genocídio, uma carnificina”, disse.

“Eu não estou aqui para falar das escolhas de vida de cada um. Não estou aqui para falar nem mal, nem bem, da polícia ou do tráfico. Agora, todos os corpos que nós pegamos ali, antes, eles estavam vivos nas mãos deles [da polícia]. Eles podiam prender, mas não, mataram e largaram no mato”.

Essa é a mesma opinião de Paula*, uma moradora que acompanhou a chegada dos corpos à sede da associação. “Foi um esculacho desnecessário. Se eles [polícia] vieram para fazer busca e apreensão, tinham que ter feito, e não matar a facada, tirar a cabeça, além dos policiais, os que estavam aqui também têm família, mãe, pai, esposa, filhos. E foram encontrados neste estado”, disse.

Entre as vítimas, além de suspeitos de tráfico de drogas, Vidal Correa denuncia que há moradores.

“São pessoas daquela região, que a gente chama de ‘lá de trás’ e que criavam cavalos. Eles vão no mato buscar comida para os animais. Então, infelizmente, estavam no momento errado, na hora errada e sofreram perdendo a vida”, denunciou. “Esperamos que isso seja esclarecido”, completou. Hoje mesmo o IML começou o reconhecimento e liberou os primeiros corpos para enterro.

Perguntado sobre a razão de a polícia ter optado por deixar as vítimas mortas no local e até impedido o socorro, Vidal acredita que a opção foi para não gerar provas. “Se levassem para o hospital ou chamado a delegacia, ia comprovar o genocídio. Era mais conveniente largar para trás”, completou.

Rio de Janeiro (RJ), 29/10/2025 – Luiz Fernando Argivaes, agente funerário da Vila Cruzeiro, durante protesto de moradores contra execuções na comunidade da Vila da Penha. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

A Agência Brasil também ouviu o dono de uma agência funerária que atua na comunidade há 22 anos. Fernando Argivaes coordenou um grupo de seis pessoas que ajudou no resgate e deu o mesmo relato: “O estado dos corpos é precário. Foi uma verdadeira chacina, uma carnificina”, disse. Eles encontraram pessoas mortas na mata, entre as pedras e chegaram a usar uma escada de eletricista. “Os corpos ficaram lá no meio do mato, na pedreira, gente que foi executada no local, pela maneira que foi, não foi auto de resistência (em confronto). Estavam escondidos e foram executados quando encontrados. 

 

Rio de Janeiro (RJ), 29/10/2025 – Dezenas de corpos são trazidos por moradores para a Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro. Operação Contenção. Foto: Tomaz Silva /Agência Brasil – Tomaz Silva/Agência Brasil

Foi Fernando que chegou ao corpo dos dois irmãos de Manaus mortos abraçados e fez a remoção. Ele informou que haverá o traslado dos mortos, assim que houver a liberação pelo IML. A maior parte dos corpos deve ser liberada somente amanhã (30), a partir da identificação pela Polícia Civil.

Mães de mortos também questionaram a operação e denunciaram execuções de rendidos. “Está ouvindo os tiros?”, pergunta Elizângela Silva à reportagem, enquanto exibe um vídeo de celular gravado de dentro da mata. “Eles estavam vivos quando a gente tentou subir a mata e a polícia jogou tiro contra nós”. Ela é vizinha da mãe de uma das vítimas. “O menino pediu ajuda de manhã: ‘mãe, me ajuda, pelo amor de Deus’, mas chegou de noite, eles pegaram e mataram todos que estavam lá”. Outras mães também denunciaram arbitrariedade contra jovens que já tinham se rendido.

Operação Contenção 

A Operação Contenção, realizada pelas polícias Civil e Militar do Rio de Janeiro, deixou 119 mortos, sendo 115 civis e quatro policiais, de acordo com o último balanço. O governo do estado considerou a operação “um sucesso” e afirmou que as pessoas mortas reagiram com violência à operação, e aqueles que se entregaram foram presos. No total, foram feitas 113 prisões. 

A operação contou com um efetivo de 2,5 mil policiais e é a maior realizada no estado nos últimos 15 anos. Os confrontos e as ações de retaliação de criminosos geraram pânico em toda a cidade, com intenso tiroteio, fechando as principais vias, escolas, comércios e postos de saúde. 

Na coletiva de imprensa, durante a tarde, na Cidade de Polícia, o secretário de Segurança Pública, Victor dos Santos, disse que os policiais seguiram as normas vigentes e que os desvios serão apurados. “O que as famílias falam, reclamam, denunciam, claro que são objeto de declarações junto às delegacias e foram instalados inquéritos para apurar esses confrontos, mas deixando claro que em todos esses inquéritos os polícias são vítimas, autores são os criminosos”, declarou, negando as execuções.

* Nome fictício para preservar a identidade da vítima.

 

“Cabeça do crime organizado não está no barraco da favela”, diz Boulos

Diante do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o novo ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, criticou nesta quarta-feira (29) a Operação Contenção, que deixou ao menos 119 mortos no Rio de Janeiro. 

“Tenho orgulho de fazer parte do governo do presidente que sabe que a cabeça do crime organizado desse país não está no barraco de uma favela, muitas vezes está na lavagem de dinheiro lá na [Avenida] Faria Lima, como vimos na Operação Carbono Oculto da Polícia Federal”, disse Boulos em seu discurso de posse no Palácio do Planalto.  

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No começo de sua fala, Boulos pediu um minuto de silêncio a “todas as vítimas”, incluindo os policiais e os moradores das comunidades do complexo do Alemão e da Penha. O presidente Lula não discursou no evento.

Cerimônia

A cerimônia de posse teve a presença do vice-presidente Geraldo Alckmin,e de ministros de Estado, como Fernando Haddad (Fazenda) e de Gleisi Hoffman (Relações Institucionais). No salão, havia centenas de representantes de movimentos sociais. 

“O presidente Lula me deu a missão de ajudar nessa reta final do seu terceiro mandato com o governo na rua”, afirmou. 

Ele explicou que a proposta é dialogar não só com quem já concorda com todas as políticas públicas, mas também com grupos como entregadores e motoristas de aplicativos. 

“A gente sabe que as políticas que mudam pessoas não nascem só nos palácios e nos gabinetes. Elas nascem do povo, dos territórios populares. Elas nascem das ruas”, considerou. 

No entanto, acrescentou que um papel será também expor “a hipocrisia dos que dizem ser contra o sistema”. “Se são contra o sistema, por que é que não apoiam a nossa proposta de taxar bilionário e bets?”, questionou.

Ao final do discurso, agradeceu aos companheiros dos movimentos sociais, que foram “escola de vida e de luta”. “São companheiros que não tiveram a oportunidade de sentar no banco de escola, mas me ensinaram muitas lições que eu não aprendi com nenhum professor da universidade. Me ensinaram o valor da solidariedade”. 

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, participa de cerimônia de posse do Secretário-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, realizada no Palácio do Planalto. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Novo ministro 

O novo ministro tem 43 anos e uma trajetória política voltada ao ativismo urbano. No novo cargo terá como desafio a articulação política entre Palácio do Planalto, movimentos sociais e sociedade civil. 

Ele nasceu em São Paulo e é filho caçula dos médicos infectologistas e professores universitários Maria Ivete e Marcos Boulos.

Filiado ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), foi eleito deputado federal em 2022, com mais de 1 milhão de votos, tornando-se não apenas o candidato mais votado do estado, mas o segundo mais votado de todo o país.

Lula envia ministros para reunião com Castro na tarde desta quarta

Os ministros Ricardo Lewandowski, da Justiça e Segurança Pública; Macaé Evaristo, dos Direitos Humanos e Cidadania; e Anielle Franco, da Igualdade Racial, seguem para o Rio de Janeiro às 15h desta quarta-feira (29) para uma reunião com o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro. O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, também fará parte da comitiva. A informação foi confirmada pelo próprio Lewandowski após encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, realizado pela manhã.

A reunião com o presidente, no Palácio da Alvorada, para tratar da Operação Contenção, ocorrida nessa terça-feira (28), no Rio de Janeiro, durou cerca de três horas e contou também com a participação de outros integrantes do primeiro escalão. Lewandowski afirmou que oferecerá peritos criminais e médicos legistas da Polícia Federal e da Força Nacional para ajudar na identificação dos corpos.

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A Operação Contenção, ocorrida nos complexos do Alemão e da Penha, na capital do estado, deixou mais de 130 mortos, mas a contagem de corpos – muitos ainda sendo retirados de área de mata pelos próprios moradores dessas comunidades – ainda não está fechada.

Em entrevista coletiva na manhã de hoje, o governador do Rio de Janeiro considerou a operação “um sucesso” e lamentou apenas as mortes de quatro policiais na ação.

De acordo com o ministro da Justiça, Castro não solicitou a decretação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) no âmbito dessa operação. Caso essa solicitação chegue, a decisão caberá ao presidente da República.

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Operação mais letal da história

As forças de segurança do estado realizaram a operação mais letal da história, para combater o Comando Vermelho. Em retaliação, os criminosos interditaram 35 ruas em diversos pontos da cidade, com veículos atravessados, latões de lixo, barricadas e pilhas de materiais em chamas. Para especialistas, a operação gerou um grande impacto na capital fluminense e não atingiu o objetivo de conter o crime organizado, pelo contrário, ações como esta apenas fortalecem a violência.

O ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa, atendeu, ainda na terça, o pedido do governador do Rio de Janeiro para transferência para presídios federais de 10 detentos que teriam liderado de dentro da cadeia ações que contribuíram com o caos na cidade.

Assista a reportagem do Repórter Brasil Tarde, da TV Brasil, sobre a repercussão da Operação Contenção

Governo ampliará trecho da ferrovia Transnordestina em Pernambuco

O ministro dos Transportes, Renan Filho, disse que será publicado na sexta-feira (31) o edital que reincluirá na ferrovia Transnordestina o trecho que ligará Salgueiro ao Porto de Suape, em Pernambuco.

O trecho, segundo Renan Filho, foi retirado do projeto pelo governo anterior. O anúncio de retomada da obra até Suape foi feito nesta quarta-feira (29), durante o programa Bom Dia, Ministro, produzido pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

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“A boa nova é que o presidente Lula tomou a decisão de não retirar Pernambuco da estratégia do desenvolvimento do Nordeste ferroviário, e reincluiu o braço de Pernambuco, que vai de Salgueiro a Suape”, disse o ministro.

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Transnordestina

A ferrovia Transnordestina está entre os chamados “grandes projetos estruturantes” planejados pelo governo federal para a região. A ferrovia terá uma extensão superior a 1,2 mil quilômetros, a um custo de aproximadamente R$ 15 bilhões.

O empreendimento ligará Eliseu Martins (PI) ao Porto do Pecém (CE), com um ramal até Suape (PE), atravessando 53 municípios. A expectativa é que comece a entrar em operação ainda em 2025, no trecho de 580 quilômetros entre o Terminal Intermodal de Cargas de Bela Vista (PI) e Iguatu (CE), passando pelo interior de Pernambuco.

“A Transnordestina está voando no Ceará e no Piauí, onde há 5 mil pessoas trabalhando nas obras”, destacou o ministro. “E, na sexta-feira, vamos publicar o edital de licitação da ferrovia no braço Salgueiro-Porto de Suape”, acrescentou.

Caminhoneiros

Ainda durante o programa Bom Dia, Ministro, Renan Filho disse que pretende ampliar para 50 o número de pontos de parada e de descanso para caminhoneiros. “O Brasil não tinha ponto de parada e descanso para caminhoneiro. Já entregamos oito e esperamos chegar a 50 pontos até o final do governo do presidente Lula”, disse.

“Essa é a nossa meta. Uma meta ousada que garantirá, nestes pontos de parada, locais seguros para alimentação, banho e descanso. Ali, ele poderá parar seu caminhão de graça”, acrescentou ao lembrar que, em muitos casos, os caminhoneiros têm de pagar caro para pernoitar em postos de gasolina.

Primeira técnica mulher no NBB, Jelena Todorovic começa com pé direito

O treino na quadra do Ginásio do Maracanãzinho está prestes a começar. O Fortaleza Basquete Cearense se apronta para enfrentar o Flamengo pelo NBB (Novo Basquete Brasil) no dia seguinte. Alguns atletas já batem bola na quadra, quando, em um certo momento, o volume da música ambiente aumenta. O ritmo é o pagode. Algo bastante familiar para os jogadores brasileiros. Mas para a técnica da equipe, nem tanto. A sérvia Jelena Todorovic, de 32 anos, foi anunciada pelo clube em julho e ainda se acostuma com as músicas brasileiras.

“Posso afirmar com confiança que danço forró muito bem. Mas ainda estou aprendendo a sambar. Toco piano e canto, adoro a música brasileira. Não sei o que é melhor no Brasil, a música ou a comida”, conta Todorovic em entrevista à Agência Brasil.

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O trabalho na equipe cearense é o primeiro da carreira dela como head coach, a função principal no banco de reservas. Depois de anos observando como grandes figuras do basquete europeu comandam seus times à beira da quadra, Todorovic se sentiu à vontade para dar o próximo passo depois de receber carta branca da direção do Fortaleza Basquete Cearense para trazer os jogadores que desejasse e implantar um sistema com ideias originais. Em mais de uma resposta, ela cita sua principal crença como treinadora.

“Para mim, o time que vence é aquele que joga melhor coletivamente, não o melhor no papel”, expõe.

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O começo no NBB tem sido animador. Os três primeiros jogos da equipe foram no Rio de Janeiro, contra clubes de tradição: venceu Vasco e Botafogo antes de cair para o poderoso Flamengo. Todorovic conta que, assim que fechou com o Fortaleza, falou com o técnico da seleção brasileira masculina, o croata Aleksandar Petrovic. A cada dia, ela conhece melhor os jogadores daqui, sejam adversários ou parceiros. Entende melhor as barreiras – como a língua – e as vantagens que o trabalho com atletas brasileiros permite.

“Atletas brasileiros, seja do futebol, vôlei ou basquete, sempre tiveram muita criatividade. Eles também são muito físicos. Tento trazer também uma influência europeia, de atenção ao detalhe, disciplina. Ensiná-los a ler o jogo. Meus jogadores são grandes pessoas e grandes profissionais. Existe uma barreira linguística, sim, mas com ajuda deles eu consigo me comunicar”, pontua.

Sérvia Jelena Todorovic, de 32 anos, é a primeira treinador mulher da Liga masculina de basquete, que existe desde 2009 – Lázaro Viana/Fortaleza Basquete Cearense/Direitos Reservados

Por falar em barreiras, a simples presença de Todorovic comandando treinos e jogos do Fortaleza Basquete Cearense derrubou um dos maiores tabus no basquete profissional masculino do Brasil, que se estende também a outros esportes. Ela é a primeira mulher a comandar um time no NBB, a liga masculina de basquete que existe desde 2009.

“Certamente isso significa muito. Mas eu me vejo, antes de tudo, como uma técnica. Toda pessoa deve conseguir um emprego baseado nas suas capacidades e se ela merece o cargo. Se você é homem ou mulher, de uma equipe masculina ou feminina, é desafiador do mesmo jeito”, afirma a treinadora.

Jelena Todorovic vai além. Recorre à história pessoal para provar que tudo é possível.

“As pessoas acham que as mulheres não conseguem impor autoridade ou não têm o que é necessário para lidar com a pressão de um time masculino. Isso não é verdade. Também há exemplos de homens treinando times femininos e acontece a mesma coisa, não conseguem lidar com a pressão. Você deve ser julgado pela sua capacidade de liderança, seu conhecimento, sua forma de se conectar com as pessoas. Daí vai vir a autoridade, não do seu gênero. Quando estou na quadra eu uso um blazer e dentro dele tem um broche com uma foto minha de quando eu era pequena, devia ter uns quatro anos. Eu uso aquilo para lembrar a mim mesmo que quando eu tinha essa idade eu já queria ser treinadora. E aquela menininha nunca deixou ninguém dizer não para ela”, conclui.

De fato, ela foi vista à beira da quadra nos primeiros jogos com um blazer que já se tornou marca registrada. Com uma carreira toda pela frente, ainda há muito tempo para construir uma identidade como uma técnica pioneira no basquete brasileiro.

Governo do Rio estima 119 mortes; moradores retiram corpos da mata

A Operação Contenção, realizada na última terça-feira (28) pelas polícias civil e militar do Rio de Janeiro, deixou 119 mortos, sendo 115 civis e quatro policiais. As informações foram atualizadas pelo secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, que participou de uma entrevista coletiva à imprensa concedida nesta quarta-feira (29).

Autoridades de segurança pública admitem que esse número pode aumentar e afirmam que as pessoas mortas reagiram com violência à operação, e aqueles que se entregaram foram presos. 

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No total, foram feitas 113 prisões, sendo que 33 eram pessoas de outros estados que atuavam no Rio de Janeiro. Além disso, dez adolescentes foram encaminhados a unidades socioeducativas. 

“A polícia não entra atirando, entra recebendo tiro”, disse Curi, ao ser perguntado se as mortes eram esperadas. “A operação estava planejada. O resultado quem escolheu não foi a polícia, foram eles”, acrescentou. 

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Para ele, a operação não foi uma chacina, termo que foi usado por movimentos sociais e defensores dos direitos humanos para classificar a ação, que foi a mais letal da história do estado.

“Chacina é a morte ilegal. O que fizemos ontem foi ação legítima do estado para cumprimento de mandados de apreensão e prisão”, afirmou. 

A operação foi amplamente criticada por especialistas, moradores, organizações nacionais e internacionais. Ativistas denunciaram que a ação foi um “massacre”, enquanto especialistas em segurança pública ouvidos pela Agência Brasil apontaram a exposição da população aos tiroteios.

A operação contou com um efetivo de 2,5 mil policiais e é a maior realizada no estado nos últimos 15 anos. Os confrontos e ações de retaliação de criminosos geraram pânico em toda a cidade, com intenso tiroteiro, fechando as principais vias, escolas, comércios e postos de saúde. 

De acordo com Curi, as pessoas mortas estão sendo oficialmente tratadas como criminosas autoras de tentativa de homicídio contra os policiais

180 mandados de prisão

O objetivo da operação era conter o avanço do Comando Vermelho e cumprir 180 mandados de busca e apreensão e 100 mandados de prisão, sendo 30 expedidos pelo estado do Pará, parceiro na operação. 

“A operação de ontem foi o maior baque que Comando Vermelho levou”, disse Curi. “Com perda tão grande de armas, de drogas e também de lideranças”, complementou. 

Foram apreendidas 118 armas, sendo 91 fuzis. A polícia contabiliza ainda a droga apreendida e estima que sejam toneladas. 

Para o secretário de Segurança Pública do estado do Rio de Janeiro, Victor dos Santos, a Operação Contenção deixou apenas oito vítimas:

“As vítimas dessa operação são quatro inocentes feridos sem gravidade e quatro policiais que infelizmente faleceram”, disse.

Na versão do secretário, as pessoas que morreram eram criminosas que optaram por não se entregar à polícia. “A alta letalidade que se verificou era previsível, mas obviamente não era desejada”, disse.

Na coletiva de imprensa, foram apresentadas imagens da ação. Segundo as autoridades, ela foi planejada, e as normas legais foram cumpridas, tais quais o uso de câmeras corporais. O conflito foi deslocado para área de mata, onde ocorreu a maior parte das mortes, para preservar a população. 

Em relação às câmeras, de acordo com as autoridades, elas podem ter ficado sem bateria, por conta da duração da operação e parte das ações pode não ter sido registrada. 

 

 Familiares esperam para identificar corpos no Instituto Médico Legal do Rio de Janeiro Tânia Rêgo/Agência Brasil

Corpos retirados da mata

Na madrugada e na manhã desta quarta-feira, a própria comunidade e familiares reuniram corpos retirados da mata em uma praça no Complexo da Penha

Perguntado por que esses corpos não foram retirados pela própria polícia ou por que não foi prestado socorro a essas pessoas, o secretário de Segurança Pública afirmou que as polícias não sabiam desses corpos

“Todos aqueles que foram retirados na madrugada ou manhã eram criminosos que sequer a polícia tinha conhecimento deles”, disse. “Muitos são baleados e entram na mata procurando ajuda”.

Sobre a possibilidade de aumento no número de mortos, Victor dos Santos disse que ainda é possível que haja mais vítimas. “Não foi consolidado ainda, pode ser que tenha aumento”, disse.
 

Dezenas de corpos são levados por moradores para a Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro. Tomaz Silva/Agência Brasil

Castro: operação foi “sucesso” e policiais mortos foram únicas vítimas

O governador do Rio, Cláudio Castro, disse nesta quarta-feira (29) que a Operação Contenção foi um sucesso e que as únicas vítimas dos confrontos foram os policiais mortos.

“Temos muita tranquilidade de defender o que foi feito ontem. Queria me solidarizar com as famílias dos quatro guerreiros que deram a vida para libertar a população. Eles foram as verdadeiras quatro vítimas. De vítima ontem, só tivemos os policiais”, disse Castro em entrevista no Palácio Guanabara, sede do Executivo estadual. 

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“Quais são os indícios que levam a crer que todos eram criminosos? O conflito não foi em área edificada. Foi todo na mata. Não creio que tivesse alguém passeando na mata num dia de conflito. Por isso a gente pode tranquilamente classificar de criminosos”, acrescentou o governador. 

Assista à entrevista do governador na reportagem do Repórter Brasil Tarde, da TV Brasil

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Número de mortos

Cláudio Castro disse ainda que o número oficial de mortos na operação das polícias Civil e Militar nos complexos da Penha e do Alemão nessa terça-feira (28) é de 58 mortos, incluindo os dois policiais civis e os dois policiais militares. Ele não explicou o motivo da mudança da contagem oficial, mas disse que o dado oficial vai mudar “com certeza”.

Ontem, o governo contabilizou 64 pessoas mortas, inclusive os quatro agentes das forças de segurança. O governador também não quis comentar sobre os cerca de 60 corpos retirados da área de mata pelos moradores do Complexo da Penha após a operação mais letal da história do estado

>> Veja as operações policiais mais letais no Rio nos últimos anos

O governador destacou que o estado do Rio é o epicentro do problema da segurança pública que “assola o Brasil”.

“Mostramos ontem um duro golpe na criminalidade e que temos condições de vencer batalhas. Mas temos a humildade de reconhecer que essa guerra não será vencida sozinhos. Agora é momento de união e não de politicagem”. 

Moradores do Rio de Janeiro viveram momentos de medo nessa terça-feira (28) diante da operação policial. Milhares de pessoas enfrentaram dificuldades para conseguir chegar em casa devido aos bloqueios das vias da cidade, além de terem de fugir dos tiroteios.

Especialistas ouvidos pela Agência Brasil criticaram a ação que gerou grande impacto na capital fluminense e não atingiu o objetivo de conter o crime organizado.

Para a professora do Departamento de Segurança Pública da Universidade Federal Fluminense (UFF) Jacqueline Muniz, a operação foi amadora e uma “lambança político-operacional”. Movimentos populares e de favelas também condenaram as ações policiais e afirmaram que “segurança não se faz com sangue”

Mortes no Rio ganham repercussão internacional

A operação deflagrada pelo governo do Rio de Janeiro, nessa terça-feira (28), contra a facção Comando Vermelho, teve repercussão internacional por conta das dezenas de mortes. Oficialmente, são 64 óbitos – incluindo quatro policiais –, mas os números finais devem passar de 100. Outros países e entidades internacionais também se manifestaram diante do alto nível de letalidade.

A ONU (Organização das Nações Unidas) fez um post, no fim da noite de ontem, em seu perfil na rede X (antigo Twitter), onde escreveu: Brasil: estamos horrorizados com a operação policial em andamento nas favelas do Rio de Janeiro, que já teria resultado na morte de mais de 60 pessoas, incluindo quatro policiais. Esta operação letal reforça a tendência de consequências extremamente fatais das ações policiais nas comunidades marginalizadas do Brasil. Relembramos às autoridades suas obrigações sob o direito internacional dos direitos humanos e instamos a realização de investigações rápidas e eficazes”.

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O jornal inglês The Guardian publicou matéria com o  título: “Brasil: ao menos 64 mortos no dia mais violento do Rio de Janeiro em meio a batidas policiais”.

A seguir, a publicação escreveu: “A operação — a mais letal da história do Rio — começou de madrugada e teve intensa troca de tiros nos arredores das favelas do Alemão e Penha, onde moram cerca de 300 mil pessoas”. E complementou: “Fotos terríveis com alguns dos jovens homens mortos se espalharam pelas redes sociais”.

Tiroteios

O espanhol El País cravou em sua reportagem sobre a operação que o “Rio de Janeiro vive uma jornada de caos colossal e intensos tiroteios por uma ação policial contra o crime organizado que já é a mais letal da história da cidade brasileira”.

O Le Figaro, importante jornal da França, relata em sua reportagem que há muita “contestação sobre a eficácia destas operações policiais de grande porte no Rio de Janeiro, no entanto, elas são comuns na cidade”.

O New York Times chamou a ação policial de “a mais mortal da história do Rio, com quatro policiais mortos e, ao menos, 60 pessoas mortas. Foi um ataque aos ‘narcoterroristas’, disse o governador do estado”.

O periódico argentino Clarín reproduziu o post de um brasileiro e estampou em seu site: “não é Gaza, é o Rio”.

Dezenas de carros foram queimados durante caos que atingiu o Rio de Janeiro –  foto – REUTERS/Aline Massuca/Proibida reprodução

O número oficial de mortos deve aumentar nas próximas horas desta quarta-feira (29). Já há mais de 50 corpos entregues às autoridades pela população local.

Dossiê Acessibilidade é lançado em São Paulo pelo Itaú Cultural

Para tentar garantir efetiva participação das pessoas com deficiência nas correntes de produção e criação artísticas, o Itaú Cultural (IC) lançou, nesta terça-feira (28), o Dossiê Acessibilidade, em São Paulo. Além de trazer dados sobre marcos legais e estatísticos, o material fornece a trabalhadores da cultura informações sobre como preparar espaços e também obras de modo que essa parcela populacional tenha seu direito à fruição artística plenamente respeitado.

Um dos principais princípios que norteiam a defesa dos direitos das pessoas com deficiência é a autonomia. Contudo, para os mais de 18 milhões de brasileiros que compõem esse grupo, não somente isso é negado no nível mais básico do cotidiano, mas também quando tentam perceber a literatura, fotos de uma exposição ou uma escultura exibida em um museu, alertaram especialistas no evento.

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Organizações e artistas às vezes tentam convencer de que se preocupam com esse aspecto ao colocar sua arte no mundo, quando, na realidade, apenas se esforçam para proporcionar um ou dois dos recursos às pessoas com deficiência, como instalar uma rampa ou contratar um profissional que dominar a Língua Brasileira de Sinais (Libras). Isso não atende a todo o público, pois ignoram outras singularidades. Essa foi uma das críticas feitas pelo consultor de acessibilidade, produtor cultural, ilustrador e gestor Claudio Rubino durante o evento de lançamento do dossiê.

Conforme complementou a pesquisadora Mariana Oliveira Arantes, “nem sempre os recursos são realmente convidativos e disponíveis”, já que, exemplificou, pode ter sido instalado um piso tátil para pessoas cegas e com baixa visão, mas ele acabar conduzindo a uma parede, como ocorre com frequência. Outro ponto salientado por ela é a necessidade de se compreender a acessibilidade não como uma questão meramente técnica, e sim estética, simultaneamente, motivo pelo qual está em expansão o contingente de artistas e ativistas da cultura def.

O dossiê do IC explica que a cultura def é uma expressão cunhada por eles e que visa valorizar as experiências e a diversidade de corpos e capacidades das pessoas com deficiência, transformando-as em insumo, no âmbito da cultura. O relatório ainda atualiza termos como “inclusão”. Rubino esclarece que, ao se usar a palavra “inclusão”, pressupõe-se que alguém é incluído e que outro alguém inclui, o que gera uma hierarquização, algo oposto ao que a cultura def propõe. A aspiração é à promoção da igualdade também na esfera decisória, lutar para que elas ocupem não apenas postos operacionais e de menor complexidade, como comumente acontece, inclusive, na iniciativa privada.

Para Rubino, que se consolidou sua expertise também a partir de seu trabalho no Instituto Tomie Ohtake, os profissionais com deficiência devem ter consciência de que não podem batalhar sozinhos em suas organizações para que isso se concretize.

“É um processo colaborativo e contínuo, em que a gente assume riscos, que podem ser organizados de uma forma que parece muito simples, fácil, mas tem muito empenho, estrutura e organização”, disse, referindo-se à complexidade e às negociações que permeiam iniciativas como o dossiê do IC.

Após conhecer quase 200 equipamentos culturais da Grande São Paulo, Mariana Oliveira Arantes constatou que há trabalho a ser feito, em relação a melhoras no vocabulário e no repertório dos agentes culturais. Um dos problemas que observou foi a utilização, por oficineiros, de nomenclaturas inadequadas e ultrapassadas, o caso de “alunos especiais” ou “alunos com necessidades especiais”.

A historiadora, que registra suas percepções e avaliações sobre acessibilidade no site Mundo em Conta, diz, ainda, que os profissionais da cultura andam ansiosos com a mudança com que têm tido que lidar, de ventos mais favoráveis às pessoas com deficiência, uma vez que editais de fomento estão tornando compulsórias ações específicas para elas ou, pelo menos, algo que vale pontuação nas seleções. “As pessoas, os artistas, estão desesperados, sem saber o que fazer”, relata ela, reprovando os que deixam para pensar nisso na última fase de seus projetos, caracterizando uma “acessibilização um tanto fajuta”.

Ao participar do 1ª Congresso Internacional sobre Deficiência da Universidade de São Paulo (USP), realizado na semana passada, Arantes confirmou, pela fala de um docente da Escola Politécnica da instituição (Poli-USP), que em boa parte do tempo as circunstâncias adversas podem estar relacionadas à falta de disposição e ao desinteresse de quem não tem deficiência, o que leva ao fracasso de empreitadas. Segundo ela, o acadêmico contou que já se deparou com um armário lotado de projetos empoeirados, o que corresponde à realidade evidenciada em um estudo que revelou que a maioria daqueles pensados para pessoas com deficiência é interrompido no seu primeiro protótipo, ou seja, em sua primeira fase de teste, não sendo, portanto, finalizado.

Olho

“Acessibilidade depende muito mais de mudança de comportamento do que de verba, estrutura”, opina a educadora.

Ex-colega de Claudio Rubino e ainda funcionária do Instituto Tomie Ohtake, a especialista em editoração Divina Prado comenta um projeto desenvolvido pelos dois, dez anos atrás, que foi como uma lanterna no caminho que foram pavimentando desde então. No desenvolvimento do Bolsa de Artista Tomie Ohtake, procuraram produzir um material educativo, acolher e tratar com a mesma dignidade crianças com e sem deficiência. Foi concebido um jogo que convocava à ação coletiva e à individual, com toda uma parafernália bastante essencial para a proposta, de caderno, livro ilustrado sobre a história da artista, audiodescrição, papel, tinta, tela e pincéis. O princípio de tudo isso foi a exposição Tomie Ohtake 100 101, que ficou em cartaz no instituto que leva seu nome, de abril a junho de 2015.

Pelo projeto, piloto e com grande número de crianças com deficiência visual, ambos aprenderam, de certa forma, um método, constantemente renovado a cada meta que se pretende atingir. A postura anticapacitista, pontua Prado, admite a combinação de elementos como a inserção de texturas, a descrição de ambientes que não são familiares para todos que estão em contato com as obras e a construção de paisagens sonoras.

No caso da Bolsa de Artista, atribuíram a mesma relevância ao CD com a paisagem sonora e à serragem para misturar na tinta.

“Na época, usava-se o CD. Isso também é uma discussão desse campo. A gente tem que estar acompanhando as tecnologias. Hoje a gente usa o QR Code. Daqui a um tempo, isso vai estar obsoleto”, reflete Prado, que, naquele momento, havia acabado de chegar ao instituto, para atuar na equipe responsável pela função educativa. “Pouco tempo depois eu comecei a construir os materiais educativos e o primeiro deles já foi feito com a participação de pessoas convidadas, professores, educadores, estudantes.”

A especialista menciona dois destaques do instituto nessa área, deste ano. O primeiro deles é Caderno-ensaio 3: Povo, para o qual os profissionais pararam para entender que sons remetem à ideia de povo. “É algo que junta criança brincando, gente pisando no chão, água fervendo, algo que é povo qualquer lugar do mundo”, diz ela.

O outro motivo de orgulho de Prado, idêntica ferramenta de acessibilidade, é o Palavra, vencedor da categoria Projeto Gráfico, no Eixo Produção Editorial do Prêmio Jabuti. Nesse caso, optaram por instrumentos de corda, “um pouco de voz, um pouco de canto guarani”.

“Existe um processo de circularidade, que é uma tentativa de fazer com que isso fique mais agradável para a pessoa ouvir, para a pessoa com deficiência visual, para a pessoa não alfabetizada, para a pessoa que está atravessando a cidade num trem lotado e não quer carregar o livro, mas vai poder ir escutando isso. O livro tem também audiodescrição de todas as imagens e que pensa numa sensibilidade estética e considera também outros elementos que estão ali, entendendo que isso é uma ferramenta de mediação editorial. É para todas as pessoas.”

Trata-se de “convidar cada pessoa a ler do seu jeito”. “Você pode ouvir, ler, ler ouvindo, ouvir só a paisagem sonora. São muitas entradas possíveis. Isso é um desejo de pensar também num, digamos, hábito contemporâneo de leitura”, finaliza Prado.

O Dossiê Acessibilidade ficará disponível no site do IC.

Moradores retiram cerca de 60 corpos em área de mata após operação

Cerca de 60 corpos foram localizados e retirados de uma área de mata do Complexo da Penha por moradores, após a Operação Contenção realizada pelas forças de segurança do estado, nessa terça-feira (28). Os corpos foram reunidos na Praça São Lucas, no centro da comunidade, e de acordo com os moradores, não fazem parte da contagem oficial de 64 mortos – 60 suspeitos e 4 policiais. A Polícia Militar foi procurada, mas ainda não se pronunciou. 

O ativista Raul Santiago, morador do complexo, fez uma transmissão ao vivo e denunciou a  “chacina que entra para a história do Rio de Janeiro, do Brasil e marca com muita tristeza a realidade do país.” 

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A pedido dos familiares, os corpos foram expostos para registro da imprensa, e depois foram cobertos com lençóis. A comunidade aguarda a retirada dos corpos pelo Instituto Médico-Legal.

Se eles realmente estiverem fora das 64 vítimas contabilizadas ontem, o saldo total de mortos da operação mais letal já realizada pelas forças de segurança do Rio, pode chegar a 120. Durante a noite, mais seis corpos encontrados em área de mata no Complexo do Alemão foram levados para o Hospital Getúlio Vargas.

O Corpo de Bombeiros já começou a retirar os corpos no Complexo da Penha. Ainda há incerteza sobre o número total de mortos na ação, que está sendo considerada pelo governo do estado como “a maior operação da história do Rio de Janeiro”. A contagem oficial na terça-feira foi de 64 óbitos, sendo 60 suspeitos e 4 policiais. Isso já caracteriza a ação como a mais letal. 

No entanto, seis corpos encontrados por moradores no Complexo do Alemão foram levados para o Hospital Getúlio Vargas durante a noite, além dos 60 localizados na Penha durante a madrugada e manhã de hoje. Caso não haja duplicidade, a conta pode chegar a 130 mortos. 

*Matéria atualizada às 9h35 de hoje (29/10)

Ler ensina empatia a crianças, diz presidente da Biblioteca Nacional

O Dia Nacional do Livro, comemorado no Brasil na próxima quarta-feira (29), pode ser uma oportunidade para estimular a leitura já a partir da infância, contribuindo para o desenvolvimento da pessoa. É o que afirma o presidente da Biblioteca Nacional (BN), Marco Lucchesi.

“Sem dúvida alguma, a infância que começa com esse impacto de leitura acaba lendo o mundo dos livros e lê o livro do mundo. São duas descobertas que se complementam mutuamente. A criança vai criando dentro dela viagens para outros mundos, possibilidades de exercício de liberdade, de imaginação, de criatividade, e, particularmente também, de empatia”.

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“A criança começa a compreender que existem outras formas de vida, outras organizações de mundo, outras formas de afeto distintas ou que recuperam como espelho o que aquela criança vive em sua casa. Mas, sobretudo, ela dá essa empatia”.

Em entrevista à Agência Brasil, Lucchesi lembra que o Dia do Livro no Brasil é comemorado em 29 de outubro por ser o aniversário de fundação da Biblioteca Nacional.

“São 215 anos de grandes aventuras, de grandes resultados para o país, de uma política da memória que atravessa inúmeras gerações. E cada uma imprime uma direção nessa mesma política”, afirma. “O livro significa um grau de expansão da sensibilidade da criança, da imaginação, do intelecto e do espírito. É para um adulto melhor que a leitura orienta, para um adulto mais generoso, mais fraterno que a leitura abre portas e janelas com muita beleza”.

Incentivo à leitura

Com esse objetivo, a Fundação Biblioteca Nacional reforça a atuação da Casa da Leitura, aberta em 1993, que visa à formação de leitores e a garantir acesso democrático à literatura, destinada em especial ao público infantil e juvenil. A unidade funciona na Rua Pereira da Silva, 86, em Laranjeiras, zona sul do Rio de Janeiro. O funcionamento é de segunda a sexta-feira, das 10h às 17h.

“A Casa da Leitura tem um papel fundamental diante dos desafios de criar novas vozes, ampliando o lugar dessas crianças e adolescentes”, indicou Marco Lucchesi.

Esse olhar estratégico da BN foi ampliado na semana passada com a inauguração de uma biblioteca em âmbito hospitalar, sob a coordenação da instituição. O pioneiro foi o Hospital Universitário Antonio Pedro (HUAP), da Universidade Federal Fluminense (UFF). Segundo Lucchesi, a ideia é instaurar a biblioterapia, ou seja, trabalhar o livro como grande terapia, não só para as crianças neurodiversas, mas também para os acompanhantes e equipes médicas.

“Nós vamos continuar trabalhando com essa meta de hospitais, porque queremos abrandar a espera para todo mundo. A gente quer humanizar esses espaços com o projeto dessas bibliotecas, sempre com a curadoria da BN”.

Outra ação na área socioeducativa deverá ser lançada pela Biblioteca Nacional em fevereiro do próximo ano, com objetivo de levar livros a adolescentes privados de liberdade. Lucchesi destacou que as crianças estão em toda parte e o exercício da leitura não é só levar a leitura às pessoas, mas aprender com as pessoas como elas podem ler.

 

O projeto Lê Pra Mim, de incentivo à leitura de livros infantis brasileiros, em Brasília. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

Potencialização

Para o professor Godofredo de Oliveira Neto, imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), o livro potencializa a cognição da criança e a conduz para um mundo mais humanista. Daí, a importância dessa data para sublinhar a importância do livro para a criança para, mais tarde, ter uma visão mais crítica e competente das coisas, inclusive da política e da ciência.

“Só pelo fato de o livro servir como material didático e paradidático nas escolas do Brasil inteiro, isso já mostra a importância do livro. Não é um capricho, é algo fundamental”, diz o imortal, que lembrou também que o livro em papel não morreu. “Ao contrário, ele consegue sobreviver ao lado do e-book, do livro digital”.

Oliveira Neto cita a experiência da Suécia, que tinha abolido o livro impresso e voltou atrás em sua decisão. “Então, os livros de conhecimento geral, de história, geografia, matemática, português, ciências humanas e sociais são fundamentais para a sustentação da criança no mundo”, defendeu. 

Sobre a literatura de ficção, o professor acrescenta que é positiva a experiência, em sala de aula, de ler com as crianças e constatar que a criação de outro mundo pelo autor ou autora coincide com histórias criadas pelas próprias crianças.

“É algo fascinante. Assim, elas mergulham no mundo literário e passam a gostar de ler. De novo, não é apenas um capricho, mas é algo fundamental para sua constituição no mundo. Acho fundamental essa data e a valorização do livro”, concluiu Oliveira Neto.

O presidente da ABL, Merval Pereira, acrescentou que o Dia Nacional do Livro “é um dia para celebrar o poder transformador da leitura em nossas vidas, uma oportunidade de incentivo do amor pelos livros e da valorização da literatura.

“Com o livro, as crianças exploram imaginação e habilidades. Ao ler, aprendem a reconhecer a importância do diálogo e da inclusão, valores cruciais para a vida moderna. Como formadores de opinião, devemos promover e facilitar o acesso aos livros a todos, desde os primeiros anos de vida. E encorajá-los a encontrar os vários mundos que existem dentro dos livros”.

 

Público lota a 20ª Bienal do Livro do Rio de Janeiro, no Riocentro, na Barra da Tijuca, zona oeste da capital fluminense, em 2023. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Sabor especial

Na avaliação do professor Hubert Alqueres, vice-presidente da Associação Brasileira de Livros e Conteúdos Educacionais (Abrelivros) e vice-presidente de Operações da Câmara Brasileira de Livros (CBL), o dia 29 de outubro é uma data muito importante para os brasileiros celebrarem a leitura, os autores, as editoras, os livreiros, professores e, acima de tudo, os leitores.

Este ano, a data tem um sabor ainda mais especial, porque o Rio de Janeiro foi escolhido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) Capital Mundial do Livro. “É a primeira cidade de língua portuguesa a receber essa distinção”, destacou.

“Para as crianças, a leitura ajuda a formar o vocabulário, o raciocínio, a sensibilidade, a criatividade. Acho que, para os jovens, ela amplia mundos, dá referências culturais, desenvolve o senso crítico. E, para quem está mais velho ou atravessando momentos difíceis de saúde, o livro é, muitas vezes, uma grande companhia”.

Também curador do Prêmio Jabuti, Alqueres comentou que é muito importante, no Dia Nacional do Livro, que se discuta essas políticas públicas cada vez melhores e mais efetivas para conquistar os leitores, englobando crianças, jovens e adultos, do ponto de vista da educação e da cultura.

Promovido pela CBL, o Prêmio Jabuti é o mais tradicional prêmio literário do Brasil. Criado em 1959 pelo então presidente da CBL, Edgard Cavalheiro, o prêmio foi idealizado para premiar autores, editores, ilustradores, gráficos e livreiros de maior destaque a cada ano. 

 

Beneficiários com NIS final 8 recebem Auxílio Gás nesta quarta-feira

Beneficiários inscritos no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico) com Número de Inscrição Social (NIS) de final 8 recebem nesta quarta-feira (29) o Auxílio Gás de outubro no valor de R$ 108.

Com duração prevista até o fim de 2026, o programa beneficia 5,01 milhões de famílias. Com a aprovação da Emenda Constitucional da Transição, no fim de 2022, o benefício foi mantido em 100% do preço médio do botijão de 13 quilos.

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O benefício é pago duas vezes a cada semestre e segue o calendário do Bolsa Família, com pagamentos até 31 de outubro, para beneficiários com NIS final 0.

Só pode receber o Auxílio Gás quem está incluído no CadÚnico e tenha pelo menos um membro da família que receba o Benefício de Prestação Continuada (BPC).

A lei que criou o programa definiu que a mulher responsável pela família terá preferência, assim como mulheres vítimas de violência doméstica.

Neste mês, o investimento do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome para o Auxílio Gás é de pouco mais de R$ 542 milhões.

Gás do povo

Em setembro, o governo federal lançou o programa Gás do Povo, que vai gradualmente substituir o Auxílio Gás.

Em vez do benefício em dinheiro, as famílias vão retirar a recarga do botijão de gás em revendedoras credenciadas.

O novo programa pretende triplicar o número de favorecidos, alcançando cerca de 15 milhões de famílias.

Castro quer transferir 10 detentos do Rio para presídios federais

O governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, pediu nesta terça-feira (28) à Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senapen), órgão do Ministério da Justiça, a transferência de 10 detentos presos em penitenciárias do Rio para presídios federais. 

Eles teriam liderado de dentro da cadeia às ações que culminaram com o caos na cidade, determinando o bloqueio de pistas, com o sequestro de ônibus em vários pontos da cidade.

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Mais cedo, Castro falou com a ministra da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República, Gleisi Hoffman, e com o ministro da Casa Civil, Rui Costa, sobre a operação realizada hoje nos Complexos do Alemão e da Penha.  

A Operação Contenção resultou em 64 mortos, entre eles, quatro policiais, além de 15 policiais civis e militares feridos. Foram apreendidos 93 fuzis, além de 86 prisões de suspeitos. 

Castro disse que sempre foi muito bem recebido pela ministra Gleisi e o ministro Rui Costa. “Me ofereceu ajuda do governo federal e ficamos de nos falar novamente agora à noite”.

O governador disse que antes vai conversar com o secretário de Segurança do Rio, Victor dos Santos para falar novamente com Rui Costa. 

“Ficamos de nos falar mais uma vez para entender os passos de amanhã [29]. Eu não acredito que segurança se faz politizando. Então qualquer ajuda que o governo federal quiser dar dentro do que a gente necessita, será bem-vinda”.

Castro disse que não houve precipitação na ação de hoje, com a reação dos criminosos. O governador disse que a ação foi para cumprir mandados judiciais e uma investigação de mais de um ano que estava sendo planejada há 60 dias, inclusive com a presença do Ministério Público estadual. Todos os preceitos da ADPF [Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental] foram cumpridos e nós sabíamos que poderia ter reação dos criminosos da região”.

A operação ainda não terminou. Na noite de hoje, agentes do Bope trocavam tiros com criminosos na área de mata na localidade conhecida como Vacaria, no Complexo do Alemão. 

A Rio Ônibus informou que 71 coletivos foram uados como barricadas em vários pontos da cidade ao longo do dia para impedir as ações das forças de segurança do Estado.

Governo lança fórum para fortalecer políticas de saúde da mulher

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, lançaram nesta terça-feira (28), em Brasília, o Fórum de Mulheres na Saúde.

O espaço será de debate permanente e de construção coletiva de políticas públicas voltadas às mulheres por meio da participação social no Sistema Único de Saúde (SUS). A iniciativa tem o objetivo de promover a saúde integral das mulheres.

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O Ministério da Saúde destaca que a criação do fórum reforça o compromisso do governo federal com a equidade de gênero e com a valorização da presença feminina no SUS.

Na sede da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, explicou que a saúde da mulher é prioridade da pasta.

“Quem mais usa o SUS são as mulheres, seja para fazer o seu cuidado próprio ou, muitas vezes, para acompanhar o filho, o marido, pai, o avô. Elas são a maioria dos profissionais [de saúde] também. No SUS, 75% dos profissionais são mulheres. Na saúde, como um todo, na saúde pública e privada, 65% são mulheres. Então, tem que ser uma prioridade absoluta.”

 

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, durante o lançamento do Fórum de Mulheres na Saúde – Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A iniciativa tem o objetivo de garantir que as políticas públicas atendam às reais necessidades das mulheres brasileiras. Por isso, a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, destacou que a criação do fórum, com a representação de diversos segmentos sociais, pode contribuir para a construção de políticas públicas voltadas às mulheres.

“Nós temos nos estados e nos municípios grupos, movimentos, entidades, autoridades públicas ou lideranças públicas e comunitárias que conhecem a realidade local e que têm respostas para ela.”

Apoiadoras

Presente ao evento, a esposa do vice-presidente Geraldo Alckmin, Lu Alckmin, destacou a importância do processo “de escuta e diálogo para valorizar as vozes femininas”.

A ativista, empresária e ex-modelo Luiza Brunet definiu o fórum como um importante canal de comunicação com ministros, deputados e outras pessoas que podem contribuir para validar as vozes das mulheres.

“Além de tomar conta das nossas mulheres, temos também que educar os maridos para que eles possam confiar nas suas mulheres, para que elas possam ter uma saúde mental e física compatível com que a gente precisa. Porque, quando a mulher é cuidada, ela é uma mulher que sofre menos violência.”

A assistente social Elisandra Martins de Freitas, conhecida como MC Lis da Batalha das Gurias, representante do movimento hip-hop, reivindicou atenção à saúde mental e que sejam consideradas as sugestões dos movimentos sociais já existentes.

“A gente não precisa reinventar a roda para encontrar as potencialidades do território. Uma sugestão para o fórum é buscar saber quais são os movimentos que já acontecem no território e que são oportunos para poder somar em todo esse processo”, sugeriu.

A representante do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) no Distrito Federal, Aline Sousa, destacou que 80% da força de trabalho do setor são compostos por mulheres e que 72% delas são negras.

Ela citou a importância da reciclagem de materiais para a saúde pública e avaliou que o segmento tem muito a contribuir no novo fórum. “Muitas vezes, os catadores não têm essa consciência porque estamos atrás apenas da sobrevivência. Mas a gente sabe, tem as novas gerações de catadores e vão conscientizando as antigas sobre o nosso impacto, que é bem maior do que garantir a renda.”

Fórum de Mulheres na Saúde

Coordenado pelo Ministério da Saúde, em parceria com o Ministério das Mulheres, o Fórum de Mulheres na Saúde terá caráter consultivo e propositivo.

Serão debatidos temas relacionados à saúde das mulheres, como saúde sexual e reprodutiva, atenção ao parto e pós-parto, menopausa, saúde menstrual, violência de gênero, saúde mental e prevenção do câncer.

A primeira reunião está marcada para janeiro de 2026.

Saúde da mulher

A secretária de Atenção Primária à Saúde do Ministério da Saúde, Ana Luiza Caldas, listou um conjunto de ações do governo federal para promoção dos direitos das mulheres e ampliação do acesso à saúde.

Entre elas, o Programa Dignidade Menstrual, criado em 2024, que já beneficia 3,7 milhões de mulheres e meninas com a distribuição gratuita de 392 milhões de absorventes higiênicos, em um investimento superior a R$ 195 milhões.

Outras políticas estratégicas citadas incluem a Rede Alyne, que destina R$ 1,2 bilhão à atenção materna e infantil, e os espaços conhecidos como Sala Lilás, voltados ao acolhimento de mulheres vítimas de violência.

Favelas e ONGS sobre mortes no Rio: “segurança não se faz com sangue”

Barricadas e fogo nas ruas. Vias bloqueadas. Impactos nos transportes, escolas, universidades e unidades de saúde. O Rio de Janeiro vive uma terça-feira (28) violenta desde o início da Operação Contenção que mobiliza 2,5 mil policiais civis e militares nos complexos do Alemão e da Penha. Segundo o governo do estado, o objetivo é realizar prisões e conter o avanço da facção criminosa Comando Vermelho.

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Movimentos de favelas reforçam, porém, que é preciso dimensionar os efeitos desiguais que as ações policiais provocam nos territórios periféricos. Para o diretor da Iniciativa Direto à Memória e Justiça Racial e militante do movimento de favelas, Fransérgio Goulart, o que se vê é uma guerra dentro de territórios negros e pobres.

“Chama a atenção os corpos negros algemados. Os corpos jogados pelo chão da favela, fora os desaparecidos no entorno da mata. A polícia não age da mesma forma na Zona Sul. Agora mesmo, passei de ônibus pela região, e a praia estava cheia. Nos territórios pretos, a polícia age historicamente de outra forma”, diz Fransérgio.

No início da noite, o registro era de 64 pessoas mortas em decorrência da operação policial, entre civis e militares –  oque faz com que a operação seja a mais letal já realizada no estado. O número, no entanto, pode ser bem maior.

“O que eu mais estranho é a própria grande mídia entrar nesse discurso de dar muito peso ao fato de os mortos serem bandidos ou não, nessa dualidade simplista. A gente teve, pelo menos, 64 pessoas mortas por causa de uma operação policial. Isso no mundo inteiro iria causar um impacto, uma comoção, uma sensibilização. E o governador está passando ileso. A política de segurança pública dele executou 64 pessoas”, complementa.

Fransérgio também critica o alto montante do orçamento público destinado às ações de confronto da polícia.

“O orçamento público previsto para as polícias no estado do Rio de Janeiro em 2026 é de R$ 19 bilhões. E esses recursos servem a uma política de produção de morte. Não para pensar uma polícia de inteligência, de menos confrontos. Qual o custo dessa operação policial para os cofres públicos, diretos e indiretos? Quais os custos de uma cidade parada, do caos que foi gerado?”, questiona.

 

Passageiros tentam embarcar para voltar para casa em dia de caos nos transportes. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Morte como política pública

Uma nota conjunta de 27 organizações da sociedade civil critica a operação que é considerada a mais letal da história do Rio de Janeiro. Antes dela, a operação de 2021 no Jacarezinho deixou 27 civis mortos.

Segundo as organizações, “segurança pública não se faz com sangue” e os resultados da operação desta terça-feira expõem “o fracasso e a violência estrutural da política de segurança no estado”.

O texto diz ainda que, ao longo dos quase 40 anos de vigência da Constituição Federal, as favelas fluminenses têm visto a consolidação de uma política de segurança baseada no uso da força e da morte, travestida de “guerra” ou “resistência à criminalidade”. As ações seriam atuação seletiva, dirigida contra populações negras e empobrecidas.

Além de não haver sinais de que as ações reduzam o poder das facções criminosas, geram insegurança e medo na população e interrompem o cotidianos de milhares de famílias. A morte não pode ser tratada como política pública, dizem as entidades.

“O que se testemunha hoje é o colapso de qualquer compromisso com a legalidade e os direitos humanos: o Estado substitui a segurança pública baseada em direitos por ações militares de grande escala. Sob o pretexto da ‘guerra às drogas’, instala-se um estado de insegurança permanente, voltado contra a população negra e pobre das favelas. Não há justificativa para que uma política estatal, supostamente voltada à proteção da sociedade, continue a ser conduzida a partir do derramamento de sangue”, diz trecho do comunicado.

Assinam o texto, as entidades Anistia Internacional Brasil, Justiça Global, Centro de Estudos de Segurança e Cidadania — CESeC, Conectas Direitos Humanos, Centro pela Justiça e o Direito Internacional — CEJIL, Instituto Papo Reto do Complexo do Alemão, Redes da Maré, Instituto de Estudos da Religião — ISER, Observatório de Favelas, Núcleo de Assessoria Jurídica Universitária Popular (NAJUP), Movimento Unidos dos Camelôs, Grupo Tortura Nunca Mais — RJ, Fórum Popular de Segurança Pública do Rio de Janeiro, CIDADES – Núcleo de Pesquisa Urbana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Instituto de Defensores de Direitos Humanos — DDH, Iniciativa Direito Memória e Justiça Racial, Frente Estadual pelo Desencarceramento — RJ, Instituto Terra Trabalho e Cidadania — ITTC, Associação de Amigos/as e Familiares de Pessoas Presas e Internos/as da Fundação Casa — Amparar, Gabinete Assessoria Jurídica Organizações Populares — GAJOP, Instituto Sou da Paz, Rede Justiça Criminal, Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional — FASE RJ, Rede Nacional de Advogadas e Advogados Populares — RENAP RJ, Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência, Casa Fluminense e Plataforma Justa.

O governador do Rio de Janeiro defendeu a operação afirmando que se for necessário vai exceder os limites e as competências do governo estadual para manter “a nossa missão de servir e proteger nosso povo”. Ao justificar a operação, o governador cobrou mais apoio federal no enfrentamento às organizações criminosas que atuam no estado e em outras partes do território brasileiro. Segundo Castro, o estado está atuando “sozinho nesta guerra”.